A
conquista da Copa das Confederações de 2013 aquietou a angustia de um
retumbante fracasso na Copa do Mundo de 2014. Momentaneamente, a inquietação
diminuiu. Mas não demorou muito para que fosse mostrado aos brasileiros que o
risco ainda era alto, pois no primeiro amistoso após a conquista o time perdeu
por 1 x 0 para a Suíça em Basel. Na seqüência os resultados da seleção voltaram
a acalmar um pouco o povo: nos seis últimos amistosos de 2013, seis vitórias,
sobre Austrália (goleada por 6 x 0), Portugal (3 x 1), Coréia do Sul (2 x 0),
Zâmbia (2 x 0), Honduras (goleada por 5 x 0) e Chile (2 x 1). Para completar,
um único amistoso em 2014 antes do anúncio oficial da lista de 23 jogadores que
representariam a camisa canarinho no Mundial, e uma convincente goleada por 5 x
0 sobre a África do Sul. Era hora então de divulgar a lista, e as modificações
foram poucas em relação ao grupo que conquistou o título no ano anterior.
Luiz
Felipe Scolari anunciou então seus escolhidos para jogar a Copa de 2014, a Copa
do Mundo do Brasil:
Goleiros: Júlio César (Toronto,
Canadá), Jéfferson (Botafogo) e Victor (Atlético Mineiro)
Laterais: Daniel Alves (Barcelona,
Espanha), Maicon (Roma, Itália), Marcelo (Real Madrid, Espanha) e Maxwell (Paris
St-Germain, França)
Zagueiros: Thiago Silva (Paris St-Germain,
França), David Luiz (Chelsea, Inglaterra), Dante (Bayern Munique, Alemanha) e Henrique
(Napoli, Itália)
Meias: Luiz Gustavo (Wolfsburg,
Alemanha), Paulinho (Tottenham, Inglaterra), Ramires (Chelsea, Inglaterra), Fernandinho
(Manchester City, Inglaterra), Hernanes (Internazionale, Itália), Oscar
(Chelsea, Inglaterra) e Willian (Chelsea, Inglaterra)
Atacantes: Hulk (Zenit, Rússia), Fred (Fluminense),
Neymar (Barcelona, Espanha), Jô (Atlético Mineiro) e Bernard (Shakhtar Donetsk,
Ucrânia).
Houve
pouquíssimas vozes dissonantes sobre a escolha do grupo. Era praticamente um
consenso de que ali estava o que havia de melhor para servir ao futebol
brasileiro naquele momento. Embora não houvesse nenhum centroavante em grande
fase, nem atuando no país nem no exterior. Embora não houvesse um diferencial
criativo no meio. O Brasil vivia uma crise de camisas 9 e camisas 10. Mas tinha
um sistema defensivo consistente. Na frente, todas as apostas se centravam na
individualidade de Neymar.
As
principais críticas recaíam sobre a escolha de Júlio César para o gol e de
Henrique para a zaga reserva. Dois nomes de confiança pessoal de Felipão. A
aposta era em persistir com o time campeão da Copa das Confederações 2013.
Foram feitos muito poucos amistosos contra adversários fortes, porque não se
acreditava que era necessário testar novas alternativas. O time estava
escolhido: Júlio César, Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz e Marcelo, Luiz
Gustavo, Paulinho e Oscar, Hulk, Fred e Neymar.
Na
estréia, um gol contra de Marcelo, a favor da Croácia, logo aos 10 minutos, foi
a primeira mostra que a caminhada seria cheia de dificuldades. Neymar empatou
antes do intervalo. No segundo tempo, Fred simulou ter sido derrubado e o
árbitro marcou pênalti, que Neymar converteu. No finzinho, Oscar pôs um 3 x 1
definitivo.
Mas
estava explícito, apesar da vitória na estréia, que o time não jogava um
futebol convincente. Bom, outras seleções que jogaram outras Copas como
mandante, também não e acabaram empurradas pela energia dos gritos de seus
torcedores ao título. Um fio de esperança se mantinha vivo. Mas o empate sem
gols com o México no segundo jogo fez as dúvidas e inseguranças aumentarem.
O
terceiro jogo foi contra Camarões. Neymar balançou a rede duas vezes. Fred
enfim desencantou e fez um. Fernandinho fez outro. Vitória elástica por 4 x 1,
mas os onze de canarinho não agradavam a quase ninguém. O próprio treinador
começou a mexer no time. Daniel Alves e Paulinho perderam a titularidade
absoluta, e Maicon e Fernandinho passaram a ser os titulares durante a
campanha. Hulk e Fred também deixavam a desejar na frente, mas ninguém no banco
de reservas parecia dar confiança suficiente ao treinador para mudá-los,
Willian e Jô tiveram chances. Os testes vinham sendo feitos ao longo da Copa e
não antes dela, como deveriam ter sido.
Nas
oitavas de final, o adversário era o Chile, do excelente atacante Alexis
Sanchez. O Brasil saiu na frente com David Luiz, mas tomou o empate treze
minutos após seu gol. Teve todo o segundo tempo e mais a prorrogação para selar
a classificação, mas não conseguiu, sequer tendo tido muitas oportunidades de
gol. Esteve muito perto da eliminação quando, aos quinze do segundo tempo da
prorrogação, 120º minuto de jogo portanto, o meia Mauricio Pinilla acertou um
chutaço que venceu Júlio César e explodiu no travessão. O quase momento histórico
foi registrado pelo meia chileno em sua própria pele, numa tatuagem feita após
a volta para casa depois de terminado o Mundial.
Limite
máximo de tensão para o país inteiro. E o time, muito nervoso, capturava este clima tenso. A Seleção Brasileira não estava acostumada a ser eliminada por
seleções que não já tivessem sido campeões mundiais. Desde 1938, em 17 edições
da Copa do Mundo, só duas vezes o Brasil havia sido eliminado antes das
quartas, em 1966 quando caiu na primeira fase, e em 1990 quando perdeu para a
Argentina de Maradona. Caiu para a Itália na semi-final de 1938, para o Uruguai
na final de 1950, para a Hungria nas quartas de 1954, para a Holanda na
semi-final de 1974, para a Argentina na semi-final de 1978, para a
Itália nas quartas de 1982, para a França nas quartas de 1986, na final de 1998
e nas quartas de 2006, e para a Holanda nas quartas de 2010. Só húngaros e
holandeses não faziam parte do seleto grupo de campeões mundiais. Ainda assim
foram finalistas de Copa. E era a Hungria de Puskas e a Holanda de Cruijff, duas equipes mitológicas na história do futebol mundial, tendo ambas marcado época e sido responsáveis por revoluções no futebol.
A
responsabilidade de todo o peso da história recaía sobre os ombros daqueles
cobradores de pênaltis. Mas foi Júlio César quem brilhou, defendendo as duas
primeiras cobranças chilenas, de Pinilla e Sanchez. No Brasil, David Luiz
converteu a primeira e Willian perdeu a segunda, chutando para fora e mantendo
os adversários vivos. Na quarta cobrança, Hulk chutou para a defesa de Claudio
Bravo. Tudo empatado: 2 x 2. Eram as duas últimas cobranças. Neymar fez o seu,
mas Jara chutou na trave. Brasil adiante! Os jogadores conheciam o peso da
responsabilidade histórica, sabiam o que representaria cair dentro de casa
antes das quartas e frente a uma seleção que não fazia parte do seleto grupo de
campeões mundiais. Tanto sabiam, que explodiram em choro após o término e a
classificação, num evidente descontrole emocional.
O
duelo nas quartas repetia a responsabilidade. Pela frente o time da Colômbia,
do excelente meia James Rodríguez, que vinha tendo atuações esplendorosas,
sendo o camisa 10 que a Seleção Brasileira naquele momento não tinha.
Foi tenso,
mas um pouco menos difícil. Com gols dos dois zagueiros, Thiago Silva e David
Luiz, o Brasil fez 2 x 0. Porém, James diminuiu a dez minutos do fim, tornando
o fim de jogo dramático. O jogo terminou 2 x 1. Mas com um fim de jogo sem
margens para comemorações. Nos minutos finais Neymar foi atingido nas costas,
durante um disputa de bola, pelo joelho do defensor Camilo Zuñiga. Com fissura
de uma vértebra da coluna vertebral, o principal jogador canarinho estava fora
do Mundial. Para o jogo seguinte, a
semi-final, o time perdeu ainda o capitão Thiago Silva, suspenso pelo segundo
cartão amarelo recebido diante dos colombianos.
O
adversário na semi-final era a Alemanha, no Mineirão, em Belo Horizonte. Se
tudo havia começado naquela campanha com um gol contra logo a 10 minutos de
jogo, foi com o mesmo tempo no placar que a defesa brasileira foi furada na
semi-final. Só que doze minutos depois, ela foi furada mais uma vez. Tendo um 2
x 0 contrário, o time brasileiro entrou em choque emocional e teve um completo
apagão: quatro gols seguidos, aos 22, 23, 25 e 28 minutos. Antes dos 30 minutos
do primeiro tempo, o placar indicava: Alemanha 5 x 0 Brasil.
Em
toda sua história, a seleção principal só havia terminado uma partida com cinco
gols contrários em quatro oportunidades, sendo uma delas uma vitória por 6 x 5
em 1938, e uma derrota por 5 x 4 em 1963. Perdeu três vezes por 5 x 1, duas
para a Argentina, em 1939 e em 1940, e uma vez para a Bélgica, em 1963. Sofreu
só duas derrotas piores do que estas três: perdeu de 6 x 1 para a Argentina em
1940, e sofreu aquela que havia sido a maior derrota de sua história até então:
Uruguai 6 x 0 Brasil em 18 de setembro de 1920, em Viña del Mar, no Chile. Em
1920, o país era totalmente agrícola e rural, sua economia vivia só do café, ainda
não havia sido inventado o rádio e muito menos a televisão, o que certamente
nos permite acreditar que mais da metade da população do país sequer soube
daquela trágica derrota.
Só
uma vez na história as redes da Seleção Brasileira haviam sido balançadas mais
de seis vezes, numa derrota para a Iugoslávia por 8 x 4 em 3 de junho de 1934.
Portanto, o país estava obviamente estarrecido. O mundo inteiro estava incrédulo
com o que era visto por seus olhos. A Alemanha naturalmente desacelerou seu
jogo, o que é comum em toda equipe de futebol que consegue uma ampla vantagem. Era
o mais racional, afinal ainda havia uma final de Copa do Mundo para ser jogada
dentro de poucos dias, era prudente preservar o time. No segundo tempo ainda
fizeram mais dois gols, com Oscar descontando no minuto final: Alemanha 7 x 1
Brasil. Triste, o país chorou.
Ficha Técnica
ALEMANHA 7 x 1 BRASIL
Gols: Thomas
Muller (10'1T), Miroslav Klose (22'1T), Toni Kroos (23'1T) e (25'1T), Khedira
(28'1T), Andre Schurrle (23'2T) e (33'2T), e Oscar (44'2T)
BRASIL: Júlio César, Maicon, David Luiz, Dante e Marcelo; Luiz Gustavo, Fernandinho (Paulinho) e Oscar; Bernard, Hulk (Ramires) e Fred (Willian).
ALEMANHA: Manuel Neuer, Philipp Lahm, Jerome
Boateng, Mats Hummels (Per Mertesacker) e Benidikt Howedes; Sami Khedira
(Julian Draxler), Bastian Schweinsteiger e Toni Kross; Thomas Muller, Mesut
Ozil e Miroslav Klose (Andre Schurrle).
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