quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Brasil na Copa América de 1989


Para a disputa da competição, Sebastião Lazaroni decidiu inovar, "europeizando" o estilo de jogo brasileiro e levando a Seleção Brasileira a atuar, pela primeira vez em sua história, com um sistema tático utilizando três zagueiros. Os laterais fariam o papel de alas, e um dos zagueiros sobrava na posição de "líbero", flutuando como último homem na sobra. Foi assim que o Brasil iniciou sua campanha naquela Copa América contra a Venezuela, sem sequer ter testado aquele esquema tático nos amistosos anteriores. Mas de todo não seria uma novidade completa, pois dos 22 convocados, 10 atuavam no futebol europeu, onde tal esquema era bastante comum. Pela primeira vez em sua história a Seleção Brasileira contou com tantos jogadores que defendiam a clubes da Europa, que eram a metade dos convocados.

A Copa América de 1989 teve uma nova mudança de formato em relação às edições anteriores: as 10 seleções foram divididas em 2 grupos de 5, nos quais os dois primeiros colocados avançavam para disputar um Quadrangular Final em que todos se enfrentavam contra todos para definir ao campeão. Só duas edições vieram a ter este formato, a de 1989 disputada no Brasil, e a de 1991 disputada no Chile.

Os três primeiros jogos da Seleção Brasileira foram em Salvador, com uma vitória por 3 x 1 sobre a Venezuela (considerada muito magra por mídia e torcedores, que estavam acostumados a ver o Brasil aplicar goleadas sobre os venezuelanos até então). Foi a primeira vez na história que a Venezuela fez um gol sobre a Seleção Brasileira, em tento marcado por Carlos Maldonado. Até antes daquela partida tinham sido 7 jogos e 7 vitórias brasileiras (aquela foi a 8ª em oito confrontos) com 32 gols marcados (média de 4,6 por partida) e nenhum sofrido.

Na sequência, sob críticas, houve dois empates sem gols contra Peru e Colômbia, em jogos marcados pelas vaias da torcida baiana, que exigia a presença em campo do centroavante Charles, ídolo da torcida local. Ele não entrou em campo em nenhum dos três jogos. Apesar da crítica local pontual, havia uma crítica que era uníssona e generalizada: o Brasil havia perdido a sua vocação ofensiva, e o esquema tático utilizado por Lazaroni era defensivo demais. Este era um diagnóstico em comum no país inteiro.

Com os três resultados bem abaixo do esperado nos três primeiros jogos, a situação brasileira ficou incômoda: o Paraguai havia vencido a seus três jogos, tendo 6 pontos, enquanto o Brasil tinha 4, seguido pela Colômbia com 3 e o Peru com 2 pontos. Peruanos e colombianos se enfrentavam. Em seu último e decisivo jogo na 1ª Fase, o Brasil mudava de sede, enfrentando ao Paraguai em Recife. Como dois avançavam à fase final, um empate brasileiro e uma vitória colombiana poderiam eliminar a Seleção Brasileira logo na Fase de Grupos.

Foi tenso. Apesar do forte apoio da torcida pernambucana, o Brasil não conseguiu sair do zero a zero no 1º tempo. Porém, a sorte começou a mudar logo aos 2 minutos do 2º tempo, quando Bebeto abriu o placar. Foi ele mesmo quem ampliou aos 37 e sacramentou a vaga no Quadrangular Final, no qual Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai se enfrentariam no Maracanã, no Rio de Janeiro.

Na fase final, o primeiro jogo do quadrangular já era uma pedreira, a Seleção Brasileira tinha pela frente à Argentina, com Maradona, Burruchaga e Caniggia. Era quase uma final antecipada, disputada numa noite de quarta-feira na qual o Maracanã recebeu 110 mil pessoas para ver a uma rodada dupla. Primeiro, vitória arrasadora de 3 a 0 do Uruguai sobre o Paraguai. No jogo principal, brasileiros e argentinos fizeram um primeiro tempo tenso e sem gols, mas bastante movimentado. Logo no início do 2º tempo, uma obra prima de Bebeto: aos três minutos, uma bola ajeitada a meia altura e ele acertou um voleio lindo, sem chance para o goleiro Pumpido, Brasil 1 a 0. O jogo ainda assim seguiu duríssimo, no qual Maradona era uma ameaça constante. O Brasil só respirou aliviado aos 20 minutos, quando Romário marcou 2 a 0.

Dois dias depois, numa noite de sexta-feira, 64 mil pessoas estavam no Maracanã e viram Maradona acertar o travessão num chute que partiu próximo à linha do meio de campo. Ainda assim, seu time perdeu por 2 a 0 para o Uruguai, com dois gols de Ruben Sosa, e deu adeus às chances de ser campeão. No jogo principal, o Brasil fez 3 a 0 no Paraguai sem muita dificuldade, com dois gols de Bebeto e um de Romário. A dupla de ataque brasileira estava infernal!

No domingo, dia 16 de julho, o Maracanã recebeu um público de 133 mil pessoas. No ar, o fantasma do Maracanazo de 1950. O time uruguaio era muito forte, tendo como sua principal estrela a Enzo Francescoli com a camisa 10, além de ter a garra do zagueiro Hugo De León, e craques de talento diferenciado como Ruben Paz e Ruben Sosa.

Foi um jogo duríssimo e sofrido, que se arrastava num tenso empate sem gols. Até que veio a bola do jogo: logo no início da etapa final, num contra-golpe que começou pelo lado direito de ataque do Brasil com o improvisado Mazinho, lateral-esquerdo de origem, que avançou ao fundo e cruzou. O goleiro Zeoli tentou sair de soco, mas o baixinho Romário se antecipou e, abaixando a cabeça, tocou para o gol. Explosão de alegria! 1 a 0!

O jogo foi sofrido até o minuto final, mas o Brasil segurou esta vantagem. Quando o juiz apitou o fim de jogo, o Brasil gritava novamente "Campeão!", um grito entalado desde 1970! Como já lembrado, era tão só a 4ª vez que a Seleção Brasileira conquistava o título continental, com a última tendo sido 40 anos antes, em 1949.





Convocação
Goleiros: Taffarel (Internacional), Acácio (Vasco) e Zé Carlos (Flamengo)
Laterais: Mazinho (Vasco), Josimar (Botafogo) e Branco (Porto/POR)
Zagueiros: Ricardo Gomes (Benfica/POR), Aldair (Flamengo), Mauro Galvão (Botafogo) e André Cruz (Ponte Preta)
Meio de campo: Dunga (Fiorentina/ITA), Alemão (Napoli/ITA), Silas (Sporting/POR), Valdo (Benfica/POR), Tita (Pescara/ITA), Geovani (Vasco) e Cristóvão Borges (Grêmio)
Ataque: Bebeto (Flamengo), Romário (PSV Eindhoven/HOL), Renato Gaúcho (Roma/ITA), Baltazar (Atlético de Madrid/ESP) e Charles Baiano (Bahia)



Campanha

01/07/1989 - BRASIL 3 x 1 VENEZUELA
Local: Estádio da Fonte Nova, Salvador
Gols: Bebeto (2'1T), Geovani (36'1T), Baltazar (12'2T) e Carlos Maldonado (18'2T)

Brasil: Taffarel (Internacional), Mazinho (Vasco), Mauro Galvão (Botafogo), Ricardo Gomes (Benfica/POR), André Cruz (Ponte Preta) e Branco (Porto/POR); Geovani (Vasco), Tita (Pescara/ITA) (Silas (Sporting/POR)) e Valdo (Benfica/POR); Bebeto (Flamengo) (Baltazar (Atlético de Madrid/ESP)) e Romário (PSV Eindhoven/HOL).
Téc: Sebastião Lazaroni
Venezuela: César Baena (Caracas), René Torres (Mineros de Guayana), Pedro Acosta (Caracas), Andrés Paz (Unión Atlético Táchira) e William Pacheco (Unión Atlético Táchira); Héctor Rivas (Marítimo) (Roberto Cavallo (Deportivo Italia)), Laureano Jaimes (Unión Atlético Táchira), Bernardo Añor (Caracas) e Carlos Maldonado (Unión Atlético Táchira); Stalin Rivas (Mineros de Guayana) e Pedro Febles (Marítimo) (Herbert Márquez (Marítimo)).
Téc: Carlos Horacio Moreno


03/07/1989 - BRASIL 0 x 0 PERU
Local: Estádio da Fonte Nova, Salvador

Brasil: Taffarel (Internacional), Aldair (Flamengo), Mauro Galvão (Botafogo), Ricardo Gomes (Benfica/POR) e Branco (Porto/POR) (Renato Gaúcho (Roma/ITA)); Alemão (Napoli/ITA), Dunga (Fiorentina/ITA), Geovani (Vasco) e Valdo (Benfica/POR); Bebeto (Flamengo) e Romário (PSV Eindhoven/HOL) (Baltazar (Atlético de Madrid/ESP)).
Téc: Sebastião Lazaroni
Peru: Jesús Purizaga (Sporting Cristal), José Carranza (Universitario), Pedro Requena (Universitario), Jorge Olaechea (Sporting Cristal) e Percy Olivares (Sporting Cristal); Juan Reynoso (Alianza Lima), Wilmar Valencia (Blooming/BOL), José Del Solar (Universitario) e Julio César Uribe (América de Cali/COL); Franco Navarro (Wettingen/SUI) (César Chávez (Universitario)) e Jorge Hirano (Bolivar/BOL) (Francesco Manassero (Sporting Cristal)).
Téc: Pepe


07/07/1989 - BRASIL 0 x 0 COLÔMBIA
Local: Estádio da Fonte Nova, Salvador

Brasil: Taffarel (Internacional), Aldair (Flamengo), Mauro Galvão (Botafogo), Ricardo Gomes (Benfica/POR) e Branco (Porto/POR); Alemão (Napoli/ITA) (Mazinho (Vasco)), Dunga (Fiorentina/ITA), Geovani (Vasco) e Valdo (Benfica/POR); Renato Gaúcho (Roma/ITA) (Bebeto (Flamengo)) e Baltazar (Atlético de Madrid/ESP)).
Téc: Sebastião Lazaroni
Colômbia: René Higuita (Atlético Nacional de Medellin), Wilson Pérez (Atlético Junior de Barranquilla), Luis Carlos Perea (Atlético Nacional de Medellin), Andrés Escobar (Atlético Nacional de Medellin) e Carlos Hoyos (Deportivo Cali); Gabriel Gómez (Independiente Medellin), Leonel Álvarez (Atlético Nacional de Medellin), Bernardo Redin (Deportivo Cali) e Carlos Valderrama (Montpellier/FRA); Arnoldo Iguarán (Millonarios) (Wilmer Cabrera (Independiente Santa Fé)) e Rubén Hernández (Millonarios) (Sergio Angulo (América de Cali)).
Téc: Francisco Maturana


09/07/1989 - BRASIL 2 x 0 PARAGUAI
Local: Estádio do Arruda, Recife
Gols: Bebeto (2'2T) e (37'2T)

Brasil: Taffarel (Internacional), Mazinho (Vasco), Aldair (Flamengo), Mauro Galvão (Botafogo), Ricardo Gomes (Benfica/POR) e Branco (Porto/POR); Dunga (Fiorentina/ITA), Silas (Sporting/POR) e Valdo (Benfica/POR); Bebeto (Flamengo) e Romário (PSV Eindhoven/HOL) (Renato Gaúcho (Roma/ITA)).
Téc: Sebastião Lazaroni
Paraguai: Rubén Ruiz Díaz (Talleres/ARG), Virginio Cáceres (Guarani), Luis Caballero (Guarani), Catalino Rivarola (Cerro Porteño) (Rogelio Delgado (Independiente)) e Juan Torales (Libertad); Julio César Franco (Guarani), Augusto Chamorro (Colegiales), Vidal Sanabria (Olimpia) e Gustavo Neffa (Olimpia) (Buenaventura Ferreira (Guarani)); Félix Brítez (Cerro Porteño) e Eumelio Palacios (Libertad).
Téc: Eduardo Luján Manera


12/07/1989 - BRASIL 2 x 0 ARGENTINA
Local: Estádio do Maracanã, Rio de Janeiro
Gols: Bebeto (3'2T) e Romário (10'2T)

Brasil: Taffarel (Internacional), Mazinho (Vasco), Aldair (Flamengo), Mauro Galvão (Botafogo), Ricardo Gomes (Benfica/POR) e Branco (Porto/POR); Dunga (Fiorentina/ITA), Silas (Sporting/POR) (Alemão (Napoli/ITA)) e Valdo (Benfica/POR); Bebeto (Flamengo) e Romário (PSV Eindhoven/HOL) (Renato Gaúcho (Roma/ITA)).
Téc: Sebastião Lazaroni
Argentina: Nery Pumpido (Betis/ESP), Néstor Clausen (Sion/SUI), José Luis Brown (Murcia/ESP), Oscar Ruggeri (Real Madrid/ESP) e Néstor Sensini (Newell's Old Boys); Sergio Batista (River Plate), José Basualdo (Deportivo Mandiyú), Pedro Troglio (Hellas Verona/ITA) e Diego Maradona (Napoli/ITA); Jorge Burruchaga (Nantes/FRA) (Claudio Caniggia (Hellas Verona/ITA)) e Gabriel Calderón (Paris Saint-Germain/FRA) (Ricardo Giusti (Independiente)).
Téc: Carlos Bilardo


14/07/1989 - BRASIL 3 x 0 PARAGUAI
Local: Estádio do Maracanã, Rio de Janeiro
Gols: Bebeto (16'1T) e (7'2T), e Romário (13'2T)

Brasil: Taffarel (Internacional), Mazinho (Vasco), Aldair (Flamengo), Mauro Galvão (Botafogo), Ricardo Gomes (Benfica/POR) e Branco (Porto/POR); Dunga (Fiorentina/ITA), Silas (Sporting/POR) e Valdo (Benfica/POR) (Alemão (Napoli/ITA)); Bebeto (Flamengo) e Romário (PSV Eindhoven/HOL) (Renato Gaúcho (Roma/ITA)).
Téc: Sebastião Lazaroni
Paraguai: Roberto Fernández (Cerro Porteño), Juan Torales (Libertad), Rogelio Delgado (Independiente/ARG), César Zabala (Cerro Porteño) e Justo Jacquet (Cerro Porteño); Jorge Guasch (Olimpia), Julio César Franco (Guarani), Gustavo Neffa (Olimpia) e Adolfino Cañete (Deportivo Mandiyú) (Vidal Sanabria (Olimpia)); Buenaventura Ferreira (Guarani) e Eumelio Palacios (Libertad).
Téc: Eduardo Luján Manera


16/07/1989 - BRASIL 1 x 0 URUGUAI
Local: Estádio do Maracanã, Rio de Janeiro
Gol: Romário (4'2T)

Brasil: Taffarel (Internacional), Mazinho (Vasco), Aldair (Flamengo), Mauro Galvão (Botafogo), Ricardo Gomes (Benfica/POR) e Branco (Porto/POR); Dunga (Fiorentina/ITA), Silas (Sporting/POR) (Alemão (Napoli/ITA)) e Valdo (Benfica/POR) (Josimar (Botafogo)); Bebeto (Flamengo) e Romário (PSV Eindhoven/HOL).
Téc: Sebastião Lazaroni
Uruguai: Javier Zeoli (Danubio), Oscar Herrera (Peñarol), Nelson Gutiérrez (Lazio/ITA), Hugo De León (Nacional) e Alfonso Domínguez (Peñarol); José Perdomo (Peñarol), Santiago Ostolaza (Nacional) (Gabriel Correa (Peñarol)), Rubén Paz (Racing/ARG) (Rubén Da Silva (Danubio)) e Enzo Francescoli (Racing Paris/FRA); Antonio Alzamendi (Logroñés/ESP) e Rubén Sosa (Lazio/ITA).
Téc: Oscar Tabárez



Resumo

Seleção Brasileira:
Taffarel (Internacional), Mazinho (Vasco), Aldair (Flamengo), Mauro Galvão (Botafogo), Ricardo Gomes (Benfica/POR) e Branco (Porto/POR); Dunga (Fiorentina/ITA), Silas (Sporting/POR) (Alemão (Napoli/ITA)) e Valdo (Benfica/POR); Bebeto (Flamengo) e Romário (PSV Eindhoven/HOL).

Artilharia: Bebeto (6), Romário (3), Baltazar (1) e Geovani (1)

Participação:
7 jogos: Taffarel, Mauro Galvão, Ricardo Gomes, Branco, Valdo e Bebeto
6 jogos: Mazinho, Aldair, Dunga e Romário
5 jogos: Alemão, Silas e Renato Gaúcho
4 jogos: --
3 jogos: Geovani e Baltazar
2 jogos: --
1 jogo: Josimar, André Cruz e Tita